Parte 3
TRANSFORMAES NA CULTURA POPULAR
Divide-se em dois captulos

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A VITRIA DA QUARESMA:
A REFORMA DA CULTURA POPULAR

A PRIMEIRA FASE DA REFORMA, 1500-1650
        Um dos quadros mais famosos de Brueghel  o Combate entre o Carnaval e a Quaresma, no qual um gordo escarranchado num barril luta com uma velha magra sentada 
numa cadeira. O significado literal desse quadro  bastante evidente, pois as batalhas simuladas entre essas duas figuras faziam parte corrente das festas de entrudo 
(acima,p. 209). Entretanto outros possveis sentidos do quadro tm gerado maior debate. Sinto-me tentando a interpretar o "Carnaval", que pertence ao lado da taverna 
no quadro, como smbolo da cultura popular tradicional, e a "Quaresma", que pertence ao lado da Igreja, como o clero, que naquela poca (1559) estava tentando reformar 
ou suprimir muitas festas populares. As razes de tal interpretao devero ficar claras ao longo do captulo.1
        Gostaria de cunhar a expresso "reforma da cultura popular"para descrever a tentativa sistemtica por parte de algumas pessoas cultas (daqui por diante referidas 
como "os reformadores" ou "os de votos") de modificar as atitudes e valores do restante da populao ou,como costumavam dizer os vitorianos, "aperfeio-los". Seria 
errneo sugerir que os artesos e camponeses no passavam de "receptculos passivos" da reforma; o auto-aperfeioamento foi um fato e existiram artesos devotos, 
como os "pregadores artfices" na Inglaterra do sculo XVII. Contudo, a liderana do movimento estava nas mos dos cultos, geralmente do clero.2
        Esse movimento de reforma no foi monoltico, mas assumiu diversas formas de regio para regio e de gerao para gerao. Os catlicos e protestantes nem 
sempre se opunham s mesmas prticas tradicionais ou, se se opunham, nem sempre era pelas mesmas razes.pg.231 Mas essas variaes no devem nos impedir de ver 
o movimento de reforma como um todo. O movimento teve dois lados, o negativo e opositivo. O lado negativo, descrito na primeira e terceira seo deste captulo, 
consistia na tentativa de suprimir, ou pelo menos purificar muitos itens da cultura popular tradicional  os reformadores podem ser vistos como  "puritanos", pelo 
menos no sentido literal de que estavam fervorosamente preocupados com a purificao. O lado positivo do movimento, discutido na segunda seo, foi a tentativa de 
levar as reformas protestante e catlica aos artesos e camponeses. 
         Os dois lados do movimento podem ser vistos em sua maior clareza fora da Europa, onde os missionrios, da China ao Peru, enfrentavam o problema de pregar 
o cristianismo num quadro cultural estranho. No entanto, os missionrios tambm estavam ativos na Europa, enfrentando problemas nos "recnditos sombrios da terra", 
que s vezes comparavam aos dos seus colegas que trabalhavam nas ndias.Os jesutas que pregavam em Huelva, a oeste de Sevilha, declararam no final do sculo XVI 
que os habitantes "pareciam mais ndios do que espanhis". Sir Benjamin Rudyerd disse na Cmara dos Comuns, em 1628, que existiam partes do Pas de Gales e do norte 
da Inglaterra "que eram parcas de Cristianismo, onde Deus era pouco mais conhecido do que entre os ndios".3
         Os reformadores objetavam particularmente contra certas formas de religio popular, como as peas de milagres ou mistrios, sermes populares e, acima de 
tudo, festas religiosas como os dias de santos e peregrinaes. Tambm objetavam contra inmeros itens da cultura popular secular. Uma lista abrangente atingiria 
propores enormes, e mesmo uma lista curta teria de incluir afores, baladas, aulamento de ursos, touradas, jogos de cartas, livretes populares, charivari, charlates, 
danas, dados," adivinhaes, feiras, contos folclricos, leituras da sorte, magia, mscaras, menestris, bonecos, tavernas e feitiaria. Um nmero considervel 
desses itens criticados associava-se ao Carnaval, de modo que no surpreende que os reformadores concentrassem suas investidas contra ele. Alm disso, proibiam  
ou queimavam  livros, destruam imagens, fechavam teatros, picavam mastros de Maio e dissolviam "abadias de desgoverno".
        Essa reforma cultural no se restringiu ao popular, pois os de votos desaprovavam todos os tipos de peas. Mas fica-se com a impresso de que foram as recreaes 
populares que arcaram com o maior impacto da investida. Quando o jesuta italiano Ottonelli atacou os atores, ele distinguiu entre os comedianti, que atuavam em 
casas particulares pg.232
para as classes altas, e os ciarlatani, que atuavam na praa do mercado, e reservou a fora total do seu repdio para estes ltimos.4 Todas as danas sofreram ataques, 
mas algumas danas tradicionais ou, como as chamaramos, "danas folclricas" foram escolhidas para uma condenao especfica.
O que, segundo os reformadores, havia de errado na cultura popular? Eram duas as principais objees religiosas, que Erasmo resume convenientemente em uma s expresso 
ao se referir ao Carnaval que presenciou em Siena em 1509, "no cristo". Em primeiro lugar, o Carnaval  no cristo por conter "vestgios do antigo paganismo" 
(veteris paganismi vestgia). Em segundo lugar,  no cristo pois nessa ocasio "o povo se entrega  licenciosidade" (populus ... nimium indulget licentiae).5 Esses 
pontos so reiteradamente repetidos pelos devotos, de modo que talvez seja o caso de consider-los um pouco mais detalhadamente.
A primeira objeo pode ser considerada teolgica. Os reformadores reprovavam muitos costumes populares por serem reminiscncias pags, "supersties" no sentido 
original do termo. A ideia de que o Carnaval e outras grandes festas so reminiscncias pr-crists tende a ser associada a sir James Prazer, mas de fato ela recua 
muito alm.Muitos reformadores eram instrudos nos clssicos, e observaram os paralelos entre as festas antigas e modernas. O luterano b avaro Thomas Naogeorgus, 
so Carlos Borromeu, arcebispo de Milo, e vrios outros compararam o Carnaval moderno s bacanais dos tempos antigos. Jean Deslyons, cnego de Senlis, referiu-se 
 celebrao costumeira da vspera de Reis como uma renovao do paganismo, "a invocao de Febo tirando-se sortes e augrios em feijes". O telogo puritano Thomas 
Hall comparou os jogos de Maio ingleses  antiga festa de Flora. Os costumes pagos eram mais do que errneos: eram diablicos. Os deuses e deusas pagos frequentemente 
eram tidos como Demnios. Quando so Carlos denunciou peas como liturgia do Diabo,podia estar falando literalmente.6
Os reformadores protestantes foram mais longe e se referiram a muitas prticas oficiais da Igreja catlica como sobrevivncia pr-crists, comparando o culto da 
Virgem Maria ao culto de Vnus, e descrevendo os santos como sucessores dos deuses e heris pagos, que tinham assumido suas funes de curar doenas e proteger 
de perigos.So Jorge, por exemplo, era identificado como um novo Perseu, so Cristvo como um segundo Polifemo. O Pagano-Papismus de Joshua Stopford, "ou um paralelo 
exato entre Roma pag e Roma crist em suas doutrinas e cerimnias", era uma comparao excepcionalmente pg. 233 elaborada, mas muitos dos seus pontos eram, ou 
vieram a ser, lugares comuns.7
        A magia tambm era denunciada como uma sobrevivncia pag.Circe e Media no foram feiticeiras? Os protestantes acusavam os catlicos de praticar uma religio 
mgica, e os reformadores catlicos estavam empenhados em expurgar da cultura popular os sortilgios e frmulas mgicas. Maximilian von Eynatten, cnego da Anturpia 
encarregado da censura local, escreveu um livro sobre o exorcismo e destruiu uma srie de livretes populares devido s referncias  magia neles presentes; o famoso 
Os quatro filhos de Aymon foi condenado em 1621 devido  adivinhao praticada por Maugis, tio dos quatro heris.8 So Carlos via o teatro como uma espcie de magia 
perigosa; um chavo teolgico era o de que o Demnio era um mestre do ilusionismo.Inglaterra  parte, as bruxas foram caadas em pases protestantes e catlicos 
no tanto por fazerem mal, mas por serem hereges, adeptas de uma falsa religio, adoradoras de deusas pags como Diana ou Holde. Algumas das ideias de Margaret Murray 
e de Frazer remontam aos
devotos dos incios da Europa moderna.
Alguns rituais populares se modelaram segundo a literatura crist. Isso os reformadores reconheciam, mas no mudou muito a situao. Tais rituais eram denunciados 
como irreverentes, blasfemos, sacrlegos, escandalosos, ofensivos a olhos e ouvidos piedosos, profanadores dos mistrios sagrados e escarnecedores da religio. O 
costume tradicional de eleger bispos meninos ou abades dos tolos era visto pelos devotos como uma zombaria  hierarquia eclesitica, e o sermo do bispo-menino foi 
mencionado, numa proclamao inglesa contra esse costume em 1541, como propenso "mais  ridicularizao do que a qualquer verdadeira glorificao de Deus ou honra 
aos seus santos". O charivari tambm era visto como um escrnio ao sacramento do matrimnio. Os oficiais chapeleiros, alfaiates, seleiros e outros artesos de Paris, 
cujos ritos de iniciao incluam uma espcie de missa e a asperso de gua sobre a cabea do iniciante, tiveram seus rituais condenados em 1655 por uma comisso 
de doutores em teologia que achavam que eles estavam "profanando o batismo sagrado e a santa missa". Os telogos no conseguiam ver a diferena entre um batismo 
simulado e a ridicularizao do batismo (acima, p. 147).9
O sermo popular sofreu ataques por razes semelhantes. Erasmo declarou uma vez que um bom pregador devia jogar com as emoes da sua audincia por meio de suas 
palavras, e no contorcendo o rosto ou gesticulando como um bufo (non scurrili corporis gesticulatione), como faziam alguns frades italianos. Poder-se-ia pensar 
que pg.234 esse comentrio no passava da reao de um europeu do norte frente  linguagem corporal mais extrovertida e inflamada dos europeus do sul, mas as inmeras 
reiteraes dessa apreciao ao longo dos sculos XVI e XVII sugerem que vinha ocorrendo uma transformao na atitude das pessoas cultas. Gian Matteo Giberti, bispo 
de Verona, condenou os pregadores que "contam estrias ridculas e contos de velhas  maneira dos bufes (more scurrarum) e fazem a congregao rir s gargalhadas", 
e sua condenao foi retomada em muitos conclios religiosos, com frequncia usando praticamente as mesmas palavras. Os protestantes concordavam. O grande pregador 
puritano William Perkins afirmou que "no  adequado, conveniente ou louvvel que os homens promovam ocasio de risos nos sermes". Uma condenao ainda mais cabal 
da pregao popular foi a formulada pelo impressor Henri Estienne II, convertido ao calvinismo. Estienne reprovava os pregadores que faziam os ouvintes rir ou chorar, 
os pregadores que inseriam estrias absurdas ou fabulosas em seus sermes, os pregadores que empregavam pragas e expresses coloquiais "que podiam ter usado num 
bordel", e os pregadores que faziam comparaes ridculas ou blasfemas, como aquela entre o Paraso e uma estalagem espanhola.10
A pea religiosa popular frequentemente era atacada por razes semelhantes. Assim, em 1534, o bispo de vora, em Portugal, proibiu peas sem uma permisso especial, 
"mesmo que elas representem a Paixo de Nosso Senhor Jesus Cristo, ou sua Ressurreio, ou o Natal ... porque dessas peas surgem muitos inconvenientes, e elas muitas 
vezes escandalizam os que no so muito firmes em nossa santa f catlica, ao verem as desordens e excessos dessas encenaes". Um ponto geralmente levantado contra 
o teatro profissional  o de que era imprprio que afores de maus princpios representassem as vidas dos santos. As procisses religiosas podiam ser condenadas se 
inclussem animais ou crianas nuas (representando anjos).11
O ponto crucial em todos esses exemplos parece ser a insistncia dos reformadores na separao entre o sagrado e o profano. Essa separao ento se tornara muito 
mais aguda do que havia sido na Idade Mdia. Em outras palavras, a reforma da cultura popular era mais do que apenas um outro episdio na longa guerra entre os devotos 
e os no-devotos, mas acompanhava uma importante alterao na mentalidade ou sensibilidade religiosa. Os devotos se empenhavam em destruir a tradicional familiaridade 
com o sagrado, pois acreditavam que a familiaridade alimenta a irreverncia.12
A segunda grande objeo  cultura popular tradicional era moral. As festas eram denunciadas como ocasies de pecado, mais particularmente pg.235  de embriaguez, 
glutoneria e luxria, estimulando a submisso ao mundo,  carne e ao Demnio  especialmente  carne. No escapava aos devotos que o mastro de Maio era um smbolo 
flico. As peas, cantigas e sobretudo as danas eram condenadas por despertar emoes perigosas e incitar  fornicao. Phillip Stubbes, o puritano elisabetano, 
atacou o que ele chamava de "o vcio medonho da pestfera dana", dando aos participantes oportunidade para "apalpadelas imundas e toques impuros", e assim funcionando 
como "um introduo  prostituio, um preparativo para a lascvia, uma provocao  impureza e um intrito a todos os tipos de obscenidades". Algumas danas foram 
objeto de denncia especial. O jesuta espanhol Juan de Mariana mostrou-se particularmente veemente contra a zarabanda, e Franois de Caulet, bispo de Pamiers, no 
Languedoc, contra Ia volto ("o rodopio"). Pode-se inferir o que havia de errado na volto a partir de uma ordem do senescal de Limoux, tambm no Languedoc, em 1666, 
que proibia danas nas quais os rapazes lanassem as moas ao ar, "de uma maneira to infame que o pudor nos obriga a ocultar a maioria daquilo que  exposto nu 
aos olhos dos participantes e circunstantes".13
Havia outros argumentos morais alm deste sobre a indecncia. Por exemplo, havia a questo de que os jogos e festividades eram ocasies de violncia. Thomas Hall 
citou "um dito corrente de que no existe festa sem algumas brigas", o que  confirmado em especial por um estudo sobre o Carnaval (acima, p. 211). Stubbes criticou 
o futebol em termos semelhantes, como "um jogo assassino" ou "uma espcie amistosa de luta". Outro dos seus pontos era que o aulamento de ursos  perverso por ser 
cruel: "Deus se ofende quando suas criaturas so maltratadas". Com um tom parecido, Mariana condenou as touradas devido  crueldade com os touros. No limiar entre 
a moral e a poltica, encontramos o argumento de que as canes populares apresentavam os criminosos como heris com uma frequncia excessiva. Em 1537, Robert Crowley 
escreveu a Thomas Cromwell queixando-se dos "harpistas" e "versejadores" que louvam os assaltos como "valentia". A associao entre festa e revolta (acima, p. 226) 
era bastante bvia, e assim, por exemplo, a famosa Compagnie de Ia Mre Folle, em Dijon, foi abolida em 1630, devido s ofensas contra o "descanso e tranqilidade" 
da cidade.14
Um outro argumento moral contra muitas recreaes populares era a sugesto de serem "vaidades", desagradando a Deus por desperdiarem tempo e dinheiro.  este o 
centro do ataque  "loucura" do Carnaval que o advogado Sebastian Brant, de Estrasburgo, acrescentou  segunda edio, em 1495, da sua famosa stira A nau dos pg.236 
loucos. Num veio parecido, o moralista ingls Robert Crowley denunciou as cervejarias como "locais de desperdcio e excesso", "abrigo de gente que vive no cio". 
Se o clero desaprovava as tavernas por desviar as pessoas da Igreja, o governo ingls, por seu lado, desaprovava-as por desviar as pessoas da prtica da arte de 
manejar o arco, to importante na guerra. Os reformadores italianos usaram argumentos parecidos. O arcebispo Gabriele Paleotti, de Bolonha, levantou objees contra 
as peas teatrais em parte porque estimulavam os aprendizes e meninos de escola a faltarem s aulas, ao passo que um Discurso contra o Carnaval, de um annimo italiano, 
publicado em 1607, critica as "despesas suprfluas" dessa poca, e lamenta a falta de "frugalidade, ordem, prudncia".15
Em suma, encontramos nesse perodo duas ticas ou modos de vida rivais em conflito aberto. A tica dos reformadores se fundava na decncia, diligncia, gravidade, 
modstia, ordem, prudncia, razo, autocontrole, sobriedade e frugalidade, ou, para empregar uma expresso celebrizada por Max Weber, "ascetismo mundano" (innerweltliche 
Askese). Foi um tanto enganoso de sua parte cham-la de "tica protestante", visto que podia ser encontrada tanto em Estrasburgo, Munique e Milo catlicas como 
na Londres, Amsterdam e Genebra protestantes.  tentador cham-la de "tica pequeno-burguesa", pois viria a se tornar tpica dos comerciantes. A tica dos reformadores 
estava em conflito com uma tica tradicional mais difcil de se definir, pois tinha menos clareza de expresso, mas que envolvia uma nfase maior nos valores da 
generosidade e espontaneidade e uma maior tolerncia em relao  desordem.16
        Venho descrevendo a reforma da cultura popular como um movimento europeu geral, a despeito das diferenas de credo religioso. Na metade do sculo XVII, os 
teatros foram fechados tanto na Madri catlica como na Londres protestante, e por razes semelhantes.  natural que um historiador ocidental se mostre mais hesitante 
em atravessar a fronteira da Igreja ortodoxa, mas h razes para crer que tambm vinha-se dando uma reforma parecida na Rssia.17
        Em 1551, um famoso conclio eclesistico russo, o dos Stoglav ou "cem leis", denunciou os jogos de "origem grega e inveno diablica" que eram realizados 
na noite de so Joo e durante a poca do Natal (acima, p. 217). O povo tambm foi proibido de consultar curandeiros ou mgicos populares. Denncia especial coube 
skomorokhi, pois os homens se vestiam de mulher, as mulheres de homem, e tinham ursos "para seduzir as pessoas simples".18
        No entanto, o auge do movimento de reforma russo parece ter pg.237 ocorrido em meados do sculo XVII, associado aos chamados "filotestas" ou "fanticos", 
como o arcipreste Neronov e seu discpulo, o arcipreste Avvakum, cuja autobiografia tornou-o uma das pessoas mais conhecidas da Rssia do sculo XVII. O czar Alexis 
apoiava os fanticos, e em 1648 lanou um dito "sobre o endireitamento dos princpios morais e a abolio da superstio", contra danas, rabequistas, mgica, mscaras, 
menestris (skomorokhi) e a "gua demonaca", referncia ao "cavalo" que ia de casa em casa durante os doze dias de Natal.19
        At que ponto eram prximos os paralelos entre a Europa oriental e a Europa ocidental? Para ajudar a responder essa pergunta, pode ser til comparar as seguintes 
passagens, que descrevem o impacto da reforma a nvel da aldeia.

        Lembro que, sendo avisado num dia de festa que alguns atores ambulantes estavam encenando uma farsa num palco que tinham erguido, fui para l com alguns 
oficiais de justia.Subi no palco, arranquei a mscara do rosto do ator principal,tirei a rabeca do homem que estava tocando e a quebrei,e fiz com que descessem 
do palco, o qual mandei que os oficiais de justia derrubassem.

Chegaram em minha aldeia ursos danarinos com tambores e alades, e eu, embora msero pecador, era zeloso servidor de Cristo e os expulsei e destru a mscara do 
bufo e os tambores ... e dois grandes ursos eu peguei  um caceteei at perder os sentidos, mas ele se reanimou, e o outro deixei seguir para o campo aberto.

As duas passagens foram escritas na metade do sculo XVII. A primeira  do cura de Nanterre, que naqueles tempos ainda era uma aldeia rural; a segunda faz parte 
da autobiografia do arcipreste Awakum. Elas do a impresso de que as trupes ambulantes de bateleurs e skomorokhi tinham muito em comum, e tambm muito em comum 
os reformadores que tentavam elimin-las.20
         importante ver o movimento de reforma como um todo mas no ao preo de faz-lo parecer monoltico; assim,  hora de dizer algo sobre as variaes. Awakum 
era um reformador em incio de carreira mas defendeu a religio popular tradicional contra as reformas litrgicas posteriormente introduzidas pelo seu velho aliado 
Nikon, depois que este passou a ser o patriarca de Moscou.21 Os reformadores catlicos e protestantes no tinham a mesma hostilidade em relao  cultura popular, 
e, quando eram hostis, no era pelas mesmas razes. A reforma catlica tendia a significar modificaes; a reforma protestante era mais inclinada a eliminaes. 
Alguns argumentos pela reforma pg 238 so especificamente protestantes, como a idia de que as festas so resqucios do papismo. Os protestantes usualmente querem 
abolir tanto os feriados religiosos como as festividades, e alguns se opem tanto  Quaresma como ao Carnaval; Zwinglio, por exemplo, desencadeou ataques contra 
os jejuns. Alguns protestantes opunham-se a todos os dias santos alm do domingo, outros eram contrrios  prpria idia de festa, isto ,  idia de que alguns 
dias so mais sagrados do que outros. Muitos protestantes eram igualmente radicais na crtica s imagens sagradas, que viam como "dolos" que deviam ser destrudos.22 
As "cerimnias", tais como os "dolos", eram atacadas como formas de religio exterior que se interpunham entre Deus e o homem, e tinham de ser abolidas. Mesmo os 
romances em brochura podiam cheirar a papismo. Quando Pierre de Provence foi traduzido para o alemo por um discpulo de Lutero, chamado Veit Warbeck, ele expurgou 
cuidadosamente o texto de suas numerosas referncias aos santos.
        Os catlicos, por outro lado, insistiam que alguns dias eram mais sagrados que outros, mas essa prpria insistncia levou-os a objetar contra a profanao 
do tempo festivo  tempo sagrado  com atividades mundanas. Os reformadores catlicos preocupavam-se com a tendncia que o Carnaval mostrava de se estender at a 
Quaresma. Carlo Bascap, bispo de Novara, atacou a teoria da recreao como "vlvula de escape" (acima, p. 225), argumentando que seria impossvel que algum conseguisse 
guardar a Quaresma com a devoo adequada se tivesse se entregado ao Carnaval imediatamente antes.23 Os reformadores catlicos denunciavam a tradio de danar ou 
encenar peas na igreja (e mesmo no adro), pois uma igreja  um local sagrado; pela mesma razo, eram contrrios ao movimento das pessoas durante a missa ou  venda 
de artigos nos prticos das igrejas. Proibiram que os leigos se vestissem como padres durante a poca do Carnaval; isso era blasfmia, pois os clrigos eram pessoas 
sagradas. Pela mesma razo, o clero foi proibido de participar das festas populares  maneira" tradicional, danando e usando mscaras como os outros; foram proibidos 
de assistir a peas, comparecer a touradas e at de gesticular com excessiva violncia durante seus sermes, recebendo instrues para se conduzirem com a gravidade 
e o decoro condizentes com seu status sagrado. Os famosos ciclos de contos sobre padres trapaceiros, como Der Pfaffe vom Kalenberg e II Piovano Arlotto (acima, p. 
180), deixaram de ser impressos, pois seus heris eram exemplos bvios demais do velho tipo de proco no reformado.
        Como era de se esperar, os reformadores catlicos da cultura popular eram menos radicais do que os protestantes. No atacavam o pg.239 culto aos santos, 
mas apenas seus "excessos", tal como o culto a santos apcrifos, a crena em certas estrias, ou a esperana de favores mundanos, como curas e protees. Eles queriam 
festas purificadas, mas no eliminadas. Em princpio defendiam as imagens, embora objetassem contra alguns exemplos especficos. A diferena entre as duas posturas 
pode ser simbolizada, se no resumida, pelo que aconteceu a so Jorge. Um livreto sobre a vida de so Jorge, publicado em Augsburg, em 1621, conta a estria de sua 
vida e martrio sem nenhuma referncia ao drago, que presumivelmente foi rejeitado como apcrifo. Eram comuns os quadros vivos sobre o dia de so Jorge na baixa 
Idade Mdia europia; em Norwich, eles representavam so Jorge, santa Margarida e, evidentemente, um drago. Os santos foram abolidos em 1552 pois "cheiravam a papismo", 
ao passo que o drago, carinhosamente conhecido como Old Snap, sobreviveu at 1835. Assim, a reforma da cultura popular na Augsburg catlica significava mostrar 
so Jorge sem o drago; na Norwich protestante, significava mostrar o drago sem so Jorge.24

        A diviso dos reformadores entre catlicos e protestantes ainda  simplista demais. Os luteranos, por exemplo, eram mais tolerantes do que os zwinglianos 
ou os calvinistas em relao s tradies populares, e as geraes posteriores nem sempre concordavam com seus antecessores. Para evitar uma simplificao excessiva, 
talvez seja til esboar a histria do movimento da reforma de 1500 a cerca de 1650.
Por volta de 1500, j existiam alguns reformadores importantes como Sebastian Brant, j mencionado, e seu amigo Johann Geiler de Kaiserberg, padre em Estrasburgo. 
Geiler objetava contra comidas, bebidas, danas e jogos durante as festas da Igreja, considerando-as como "a runa do povo" (des gemeinen Volks Verdebnis). Ele se 
mostrou particularmente hostil ao costume local do Roraffe. No Pentecostes, um bufo escondido atrs de uma esttua com aquele nome, na catedral de Estrasburgo, 
cantava e fazia palhaadas durante o ofcio divino. Na mesma poca, Girolamo Savonarola vinha tentando empreender reformas parecidas em Florena. Poucos dias antes 
do Carnaval de 1496, ele pregou um sermo sugerindo que "os rapazes deviam coletar esmolas para os pobres respeitveis, ao invs de brincadeiras doidas, atirando 
pedras e fazendo carros alegricos".25
        Esses ataques s recreaes populares no eram propriamente novos em 1500. No incio do sculo XV, so Bernardino de Siena denunciara pg.240 o costume de 
encenar as festas de Natal, Jean Gerson, a festa dos Bobos, e Nicolau de Clamanges, as viglias nas igrejas: "Eles fazem viglias, mas so perversas e desavergonhadas. 
Alguns danam nas prprias igrejas e cantam cantigas obscenas, outros ... jogam dados". Podemos recuar ainda mais. No sculo XIII, Robert Grosseteste censurou os 
clrigos que organizavam "peas que chamam de milagres e outras peas que chamam de apresentao de Maio ou do Outono". No sculo XII, Gerhoh de Reichersberg atacou 
todas as peas religiosas. Os ataques russos aos skomorokhi seguiam precedentes bizantinos, e assim podemos prosseguir, recuando no tempo at a poca dos pais da 
Igreja, como Agostinho, que ficava chocado ao ver as pessoas vestidas com peles de animais no dia de Ano-Novo, e Tertuliano, que criticou a participao crist nos 
spectacula (espetculos de gladiadores) e nas Saturnalia, Essas condenaes dos pais da Igreja eram muito conhecidas e influentes nos sculos XVI e XVII, e os inimigos 
do teatro citavam Tertuliano, traduzindo spectacula por "peas".26
        Em suma, os religiosos parecem ter condenado a cultura popular em termos muito parecidos desde os primeiros dias do cristianismo em diante. Essa tradio 
de condenao sugere que a cultura popular  notavelmente resistente.27 Ela tambm levanta uma clara objeo  tese central deste captulo, mas a essa objeo talvez 
seja possvel encontrar uma resposta.
        As reformas medievais foram essencialmente esforos espordicos realizados a nvel individual. No eram capazes de se difundir ou durar por muito tempo, 
devido  natureza das comunicaes medievais. Para um bispo reformador, era difcil chegar aos recantos mais distantes de sua diocese com a frequncia necessria 
para l converter suas intenes em realidade, e ainda mais difcil era-lhe assegurar que suas reformas sobreviveriam a ele. Da a resistncia da cultura popular, 
e o fato de que, de Tertuliano a Savonarola, encontramos uma sucesso de reformadores com queixas essencialmente idnticas. Ao longo do sculo XVI, porm, os esforos 
espordicos foram substitudos por um movimento de reforma mais coeso. Os ataques  cultura popular tradicional se tornaram mais assduos, e multiplicaram-se as 
tentativas sistemticas de retirar-lhe seu "paganismo" e "licenciosidade". Esse movimento,  claro, tem muito a ver com as reformas protestante e catlica, pois 
a reforma da Igreja, tal como era entendida na poca, necessariamente supunha a reforma do que chamamos cultura popular.
         verdade que Lutero encarava com relativa simpatia as tradies populares. No se opunha totalmente a imagens ou santos, e no era um inimigo do Carnaval 
ou Johannisnacht: "Que os meninos tenham pg.241 seus divertimentos" (pueri etiam habeant suum lusum) era sua atitude. Mas opunha-se aos contos de Till Eulenspiegel 
e ao padre de Kalenberg, por glorificarem a "velhacaria". Em todo caso, os luteranos eram mais estritos do que Lutero. Andreas Osiander, que ajudou a introduzir 
a reforma luterana em Nuremberg, ops-se ao famoso Schembartlauf e conseguiu fazer com que fosse abolido. A tradicional pea da Sexta-Feira da Paixo tambm desapareceu. 
O luterano bvaro Thomas Naogeorgus sustentou um ataque generalizado s festas populares, como resqucios do papismo, em seu livro O reinado papista. Na Sucia luterana, 
os bispos comandaram a investida contra a "idolatria e superstio" (avguderi och vidskapelse), com uma ateno particular contra a magia e o culto das fontes.28
        Zwinglio, Calvino e respectivos seguidores foram muito alm de Lutero em sua oposio s tradies populares. Zwinglio mandou que fossem retiradas todas 
as imagens das igrejas de Zurique, em 1524, e elas no foram recolocadas depois de sua morte, em 1531. Calvino se opunha a peas e "canes obscenas" (chansons deshonntes) 
e, da Esccia  Hungria, seus adeptos destacaram-se entre os adversrios das festas populares. Na Frana, em 1572, o snodo calvinista de Nmes proibiu at mesmo 
peas com temas bblicos, pelo motivo de que a "santa Bblia no nos foi dada para nos servir de passatempo". Na Esccia, de meados de 1570 em diante, houve um ataque 
continuado contra a comemorao do Natal, Solstcio de Vero e outras testas com danas, cantos, fogueiras e peas.29
        A oposio dos puritanos ingleses aos divertimentos populares  bastante conhecida e est bem documentada. Phillip Stubbes formulou uma denncia generalizada 
contra os "senhores do desgoverno", os jogos de Maio, os festejos de Natal, cervejas nas igrejas, viglias, aulamento de ursos, rinhas de galos e danas. Ironicamente, 
 pouco provvel que gostasse de saber que a  sua Anatomy of Abuses ("Anatomia dos Abusos") (assim como O reinado papista)  lida hoje em dia principalmente por 
pessoas interessadas nos divertimentos populares que ele condenou. Distraction of the Sabbath ("A perturbao do dia de Descanso"), de J. Northbrooke, e Dialogue 
against Dancing ("Dilogo contra a dana") de C. Fetherston, eram obras contemporneas com o mesmo esprito. Essas concepes tinham respaldo em altos crculos, 
notadamente junto a Edmund Grindal, arcebispo de York. Devido  presso de Grindal e outros, a pea religiosa popular desapareceu no reinado de Elizabeth. Em Norwich, 
os "quadros vivos", como costumavam ser chamados, desapareceram em torno de 1564; em Worcester, por volta de 1566; em York, aproximadamente em 1572; em Wakefield 
pg.242 e Chester, por volta de 1575; em Chelmsford, por volta de 1576; em Coventry, em torno de 1590.30
        Na Repblica Holandesa, as atitudes dos calvinistas eram igualmente severas, e a oposio a elas era menor. O snodo de Edam (1586) proibiu o uso dos sinos 
e rgos de igreja para tocar "canes impensadas e mundanas" (lichtveerdige ende weereltlycke gesangen). O snodo de Doccum (1591) condenou "o toque de sinos para 
reunir jovens, erguer mastros de Maio, pendurar guirlandas e cantar canes e coros carnais sob ele". O snodo de Deventer (1602) denunciou, entre outros "abusos", 
as peas e danas de espadas da Tera-Feira Gorda. O conflito entre o Carnaval e a Quaresma ainda estava em andamento nos meados do sculo XVII, quando o pregador 
holands Petrus Wittewrongel pronunciou-se contra peas e mastros de Maio, ao passo que outro calvinista holands, Walich Siewert, denunciava o costume de encher 
os sapatos das crianas, na festa de so Nicolau, "com todas as espcies de doces e ninharias" (met allerley snoeperie ende slickerdemick).31
        Do lado catlico, a tradio de Geiler e Savonarola teve seus seguidores na primeira metade do sculo XVI. L estava Erasmo, muito mais severo do que Lutero 
em relao  cultura popular, e entre os reformadores ativos estava Gian Matteo Giberti, o bispo de Verona. Se os exemplos anteriores a 1550 so isolados, no  
mais o caso depois do conclio de Trento, que realizou suas ltimas e mais decisivas sesses em 1562 e 1563. Nas suas tentativas de se contrapor s heresias de Lutero 
e Calvino, os bispos reunidos em Trento lanaram vrios decretos para a reforma da cultura popular. Embora defendessem a tradio do uso de imagens nas igrejas, 
declararam:

Na invocao dos santos, venerao das relquias e uso sagrado das imagens, toda superstio dever ser removida, toda busca imoral de ganho eliminada e toda lascvia 
evitada, de modo que as imagens no sero pintadas ou enfeitadas com encanto sedutor, nem a celebrao dos santos e a visita s relquias sero pervertidas pelo 
povo em festividades turbulentas e bebedeiras, como se as festas em honra aos santos se celebrassem com orgias e no com um senso de decncia.32

Vrios snodos e conclios paroquiais foram realizados na Europa catlica nos meados dos anos 1560, de Rheims a Praga, de Haarlem a Toledo, para implantar localmente 
os decretos de Trento. Esse tipo de conclio j vinha condenando constantemente as falhas morais do clero ou os abusos na ministrao dos sacramentos; o que havia 
de novo nos anos 1560 era a preocupao com a reforma das festas e as crenas do pg.243 "povo inculto" (indocta plebs). Os ndices de livros proibidos lanados
no final do sculo XVI referiam-se basicamente a livros teolgicos em latim, mas tambm proibiram algumas baladas e livretos populares, especialmente Till Eulenspiegel 
e Reynard, a raposa. O index portugus de 1624 proibiu uma srie de obras religiosas populares, como O testamento de Jesus Cristo, A ressurreio de Lzaro e oraes 
especficas a so Cristvo e so Martinho, que supostamente concederiam a quem as rezasse tudo o que se quisesse, fosse escapar ao perigo ou lograr "grande vingana 
de inimigos".33
        Em suma, dos anos 1560 em diante deu-se um movimento organizado dentro da Igreja catlica, em apoio aos reformadores individuais. J encontramos Carlos Borromeu, 
arcebispo de Milo, Gabriele Paleotti, arcebispo de Bolonha, e Carlo Bascap, secretrio e discpulo de so Carlos, que se tornou bispo de Novara. Os trs davam 
grande importncia  seriedade e modstia do clero, e eram inimigos declarados das tavernas, peas e, acima de tudo, do Carnaval. De maneiras mais brandas, mas com 
idias parecidas era so Francisco de Sales (chamado "bispo de Genebra", mas de fato bispo de Annecy). A esses bispos, deve-se acrescentar pelo menos um leigo catlico, 
Maximiliano, duque da Baviera, que tomou grande interesse pessoal pela obra da reforma em seus domnios no incio do sculo XVII, proibindo (entre outras coisas) 
mgicas, mascaradas, trajes curtos, banhos mistos, leituras de sorte, excessos na comida e bebida e linguagem "indecorosa" nos casamentos.34
        Um indicador do impacto do movimento da reforma na cultura popular na Europa catlica e protestante nos  dado pela histria do teatro religioso. Em partes 
da Frana e Itlia, parece ter chegado quase ao fim por volta de 1600. Em Paris, em 1548, a Irmandade da Paixo foi proibida de encenar suas costumeiras peas de 
mistrio (embora deva-se acrescentar que o Supremo Tribunal de Paris permitiu que retomassem suas apresentaes'mais de 25 anos depois, em 1574 e novamente em 1577). 
Segundo o historiador da arte Giorgio Vasari, as peas de mistrio praticamente cessaram em Florena no final dos anos 1540. De modo bastante curioso, continuaram-se 
a imprimir em Florena textos de peas religiosas tradicionais at o final do sculo XVI, mas por volta de 1625 elas tambm desaparecem. Em Milo, um conclio paroquial 
proibiu as peas religiosas em 1566, proibio esta que, para sua vigncia, contou com ningum menos que o prprio so Carlos; em 1578, as peas foram denunciadas 
pelo arcebispo de Bolonha, e em 1583 o conclio de Rheims proibiu totalmente as peas em dias de festa (ludos theatrales... omnino prohibemus). Em 1601, o governo 
dos pg.244 Pases Baixos espanhis lanou um dito contra peas religiosas, por conterem "muitas coisas inteis, desonrosas e intolerveis, s servindo para depravar 
e corromper os princpios morais (te corrumperen end bederven alie goede manieren), especialmente os das pessoas simples e boas, com o que o povo fica chocado ou 
extraviado".35 Na Inglaterra, ocorreu no Natal de 1594, no castelo de Wisbech, na ilha de Ely, um confronto revelador entre as velhas e as novas atitudes entre o 
clero catlico, quando os padres foram presos pelo governo elisabetano. Havia dois grupos ou faces entre os padres em Wisbech, seculares e jesutas, apoiando respectivamente 
o catolicismo tradicional e o catolicismo da Contra-Reforma. No Natal, um cavalinho de pau foi levado at o salo de Wisbech, como parte dos festejos. O jesuta 
William Weston, lder dos catlicos da Contra-Reforma, ficou chocado com este e outros "abusos grosseiros", os quais queria reformar. O lder dos catlicos tradicionais, 
Christopher Bagshaw, ficou igualmente chocado com a intolerncia de Weston.36
        Se os prprios clrigos s vezes objetavam contra os reformadores, pode-se imaginar que os leigos nem sempre os recebiam com entusiasmo. Na Espanha, a segunda 
rebelio dos mouros das Alpujarras, que se iniciou em 1568, foi uma reao s tentativas de reforma  fora de sua cultura popular, com proibies aos seus trajes, 
danas e rituais tradicionais. Em outros lugares, a oposio dos leigos se expressava, de modo bastante apropriado, pela pblica ridicularizao ritualizada dos 
reformadores. Em Nuremberg, onde a oposio ao Schembartlauf tradicional era liderada pelo pastor luterano Andreas Osiander, os folies tiraram sua desforra em 1539 
de modo verdadeiramente carnavalesco. Nesse ano, construram seu carro alegrico com a forma de uma nau dos loucos, na qual se destacava o prprio Osiander, com 
seu hbito negro, e tambm atacaram sua residncia. Em outras palavras, o protesto assumiu a forma de um charivari um tanto excntrico. Em Bolonha, em 1578, o mesmo 
ano em que o arcebispo Paleotti denunciou, as peas, temos o primeiro registro da queima de Ia veccha, imagem da Quaresma. Paleotti estaria sendo ridicularizado 
da mesma forma como fora Osiander? Em Wells, em 1607, um negociante de roupas de nome John Hole ops-se ao costume tradicional de cervejas nas igrejas. Os jogos 
de maio em Wells foram extremamente elaborados nesse ano, e os quadros vivos incluram uma apresentao do "holing game, uma stira a John Hole e seus amigos. No 
entanto, nesses combates entre o Carnaval e a Quaresma, eram geralmente os devotos que tinham a ltima palavra. Entre 1550 e 1650, muitos costumes tradicionais foram 
abolidos. A metade do sculo XVII pode ser considerada como trmino de uma pg.245 primeira fase na reforma da cultura popular, gerada pelas reformas catlica e 
protestante, conduzida principalmente pelo clero e justificada com razes teolgicas.37 A ela se seguiria uma segunda fase, em que os leigos tomaram a iniciativa.

A CULTURA DOS DE VOTOS
A reforma da cultura popular at agora foi apresentada em termos negativos.  claro que os reformadores tinham ideais positivos, e em todo caso sabiam que no teriam 
possibilidade de xito se no oferecessem ao povo algo para substituir as festas, canes e imagens tradicionais que estavam tentando abolir. Por isso, os devotos 
tentaram criar uma nova cultura popular; Lutero, por exemplo, organizou uma coletnea de hinos, "para dar aos jovens ... algo que os afaste das baladas de amor e 
versos carnais, e ensine-lhes algo de valor em lugar destes".38 Nesta seo, tentarei descrever as substituies catlicas e protestantes. Sobre a cultura ortodoxa 
reformada, parece no existir praticamente nenhum indcio, embora parea que o fosso aberto com a proibio dos skomorokhi tenha sido preenchido com os kaleki, cantores 
profissionais ambulantes de canes religiosas, ou stikhi.
Para os protestantes, a grande prioridade era tornar a Bblia acessvel s pessoas simples, numa linguagem que elas pudessem entender. Lutero insistiu nesse ponto 
com seu modo enrgico: " preciso perguntar  me, em casa, s crianas, nas ruas, e ao homem comum, na praa do mercado, ouvir de suas prprias bocas como eles 
falam, e traduzir em consonncia com isso".39 Ele publicou seu Novo Testamento em alemo em 1522, e a Bblia completa em 1534, e seu exemplo logo foi seguido em 
outras reas protestantes. O Novo Testamento de Tyndale foi publicado em 1535; a Bblia sueca de Laurentius Petri, conhecida como a "Bblia de Gustavo Vasa", em 
1541; a Bblia de Genebra em francs, em 1540 (mais conhecida em sua verso revista de 1588); a Bblia tcheca standard, a "Bblia de Kralice", foi composta em seis 
volumes por uma comisso de dez estudiosos, entre 1579 e 1593; a Bblia calvinista hngara standard foi publicada pela primeira vez em 1590; a traduo galesa standard 
foi feita por William Morgan, que morreu em 1604; a verso autorizada inglesa, tal como a Bblia de Kralice tambm resultante da obra de uma comisso, apareceu em 
1611.40
As publicaes dessas Bblias nas vrias lnguas foi um grande acontecimento cultural que influenciou largamente a linguagem e a literatura dos respectivos pases. 
Na Frana, a minoria huguenote veio pg.246 a falar o que se chamou de "o patois de Cana", um francs arcaico mais prximo da Bblia de Genebra do que da lngua 
dos seus compatriotas catlicos. Na Alemanha protestante, o local sagrado da casa passou a ser conhecido como Bibel-Eck. No entanto, seria totalmente equivocado 
imaginar que cada famlia de artesos ou camponeses protestantes em nosso perodo possusse ou lesse a Bblia.  verdade que no sculo XVIII, quando as estimativas 
comeam a se tornar possveis, a taxa de alfabetizao era muito mais alta na Europa protestante do que na Europa catlica ou ortodoxa (adiante, p. 273).  difcil 
dizer se essa taxa elevada era causa ou consequncia da Reforma  provavelmente foram as duas. Mas nem todos os protestantes sabiam ler, e nem todos os que sabiam 
ler podiam comprar uma Bblia. O Novo Testamento de 1522, de Lutero, custava meio florim, numa poca em que este era o salrio semanal de um oficial carpinteiro, 
e a Bblia completa de Lutero custava dois florins, oito groschen. Mesmo na Sucia do sculo XVIII, onde a taxa de alfabetizao entre os adultos estava acima de 
90% em alguns distritos rurais, as indicaes dos inventrios sugerem que s se encontrava uma Bblia em cada vinte casas.41
Os artesos e camponeses protestantes muitas vezes devem ter recebido o conhecimento que tinham da Bblia oralmente ou de segunda mo. As leituras da Bblia constituam 
um elemento importante nos ofcios luteranos e calvinistas. O que os protestantes comuns provavelmente mais conheciam eram os salmos, pois podiam ser cantados e 
ocupavam um papel importante nas liturgias reformadas. O hino mais famoso de Lutero, Ein'feste Burg ist unser Gott ("Nosso Deus  uma fortaleza"),  de fato uma 
adaptao do salmo 46, "Deus  nosso refgio e fora". A verso inglesa padronizada dos salmos, "Sternhold e Hopkins", teve quase trezentas edies entre meados 
do sculo XVI e meados do sculo XVII. A verso huguenote padronizada era a de Marot e Beza, musicada plos compositores Louis Bourgeois e Claude Goudimel. Outras 
verses calvinistas influentes incluam duas holandesas, de J. Utenhove (1566) e P. Mamix (1580); uma traduo escocesa associada aos Wedderburns, datada do final 
do sculo XVI; e uma hngara, de A. Molnr (1607). Sem dvida os salmos deveram parte de sua popularidade  identificao de muitos protestantes com o povo de Israel, 
empenhados numa guerra santa contra os idlatras. Em Lyon, nos anos 1560, artesos huguenotes armados cantavam os salmos nas ruas, e o mesmo ocorria enquanto escavavam 
as fundaes do seu templo. Em Londres, em 1641, os puritanos cantaram salmos para abafar os ofcios anglicanos. Os huguenotes e puritanos cantavam salmos quando 
seguiam para as batalhas, particularmente o 68, Que Deus pg.247 aparea e seus inimigos debandem". O exrcito de Cromwell cantou um salmo em ao de graas depois 
de sua vitria em Marston Moor. Os protestantes citavam salmos em seus testamentos, ouviam-nos sendo cantados nos cus, cantavam-nos em funerais, casamentos, banquetes, 
at nos sonhos. Um bispo sueco se queixou que se cantavam salmos nas cervejarias, ao passo que o consistrio de Lausanne ficou chocado, em 1677, ao saber de algumas 
pessoas que tinham cantado salmos enquanto danavam. Eles faziam parte to integrante da vida cotidiana em algumas reas calvinistas que, quando se procedeu no sculo 
XIX a uma pesquisa sobre canes folclricas tradicionais na Frana, no se conseguiu encontrar nenhuma em Cvennes. Nesta cultura huguenote tradicional, os salmos 
tinham assumido as funes das canes folclricas, e eram usados at mesmo como canes de ninar.42
Primordial para a cultura popular protestante era o catecismo, um livrinho contendo informaes elementares sobre a doutrina religiosa. Os catecismos existiam antes 
da Reforma: sua novidade era a de apresentar a matria em forma de pergunta e resposta, tornando fcil difundir  e testar  o conhecimento religioso. Exemplos famosos 
so o pequeno catecismo de Lutero, de 1529, o catecismo de Calvino (principalmente em sua verso revista de 1542) e o catecismo de Heidelberg de 1563. O pequeno 
catecismo de Lutero fora planejado como auxlio a pastores incultos, mas logo veio a desempenhar um papel mais direto na vida laica. Como disse o bispo sueco Laurentius 
Paulinus, ele era "a Bblia do homem comum", "um curto resumo de todas as Sagradas Escrituras". Na Sucia, faziam-se sermes sobre o catecismo e leituras dele durante 
o ofcio, ao passo que o texto impresso encontrava-se em hinrios. No sculo XVII, o clero comeou a percorrer casa por casa na Sucia, para testar os leigos sobre 
sua capacidade de leitura e conhecimento do catecismo, visita esta conhecida como husfrhr. Em outros lugares, a capacidade de responder corretamente as perguntas 
do catecismo por vezes constitua um pr-requisito para a admisso  Ceia do Senhor, o principal ritual das Igrejas protestantes. Ocasionalmente, o catecismo era 
versificado, para facilitar a memorizao, como no caso do Catechismus-Lieder, de Martin Rinckart, publicado em Leipzig em 1645. No surpreende que em alguns lugares 
os catecismos fossem muito mais comuns do que as Bblias; na Sucia do sculo XVIII, havia um catecismo ou hinrio com o catecismo em cada cinco ou seis casas, ao 
passo que apenas um entre vinte lares possua a Bblia.43
        A mensagem dos salmos e do catecismo era insistentemente incutida por vrias outras formas. A cultura protestante era a cultura do sermo. Os sermes podiam 
durar horas e constituir uma grande experincia pg.248 emocional, envolvendo a participao da audincia, com exclamaes, suspiros ou lgrimas dos membros da congregao. 
A existncia de "pregadores artfices" na Inglaterra ou em Cvennes mostra que o povo simples podia estar to atento  linguagem e ao estilo de encenao do pregador 
quanto  sua mensagem; na verdade, sua cultura predispunha-os a serem mais hbeis em apresentaes orais, fosse de pregadores, contadores de estrias ou cantores 
de baladas, do que ns atualmente. Os leigos podiam desempenhar um papel considervel em "profetizaes", discusses pblicas sobre o sentido das Escrituras.Os leigos 
alfabetizados podiam ler livros de controvrsias ou oraes. Calvino pretendera que alguns dos seus tratados em francs fossem lidos por artesos, que constituam 
o maior grupo social da Igreja Reformada naquela poca; na introduo aos seus tratados contra os anabatistas, ele explica que o propsito do texto era mostrar aos 
que, entre os fiis, so "rudes et sans lettres" (provavelmente pouco instrudos, e no analfabetos); como eram perigosos os anabalistas.44 Alguns livros de oraes 
se tornaram best-sellers. The Plam Man 's Pathway to Heaven ("O caminho do homem simples para o cu", 1601) de Arthur Dent teve 25 edies em quarenta anos, o que 
sugere que esse vvido dilogo realmente tinha um apelo entre os homens simples; sabemos que influenciou Bunyan, cujo Pilgrim's Progress ("Progresso do Peregrino", 
1678), alm de ter 22 edies em 1699, era lido em outras partes da Europa. No mundo luterano, A verdadeira Cristandade e Jardim do Paraso, de Johann Arndt, foram 
frequentemente reeditados at o incio do sculo XIX.
        A msica, o ritual e as imagens tinham, todos eles, seu papel na cultura popular protestante, apesar das apreenses dos lderes. Lutero autorizou que se 
cantassem na igreja outros hinos alm dos salmos, e ele mesmo escreveu 37 hinos. Seu exemplo foi seguido por vrios pastores, notadamente Johannes Mathesius, Paul 
Gerhardt e Johannes Rist. Ao escrever, eles empregavam frequentemente o mtodo de Contrafaktur, para empregar o termo de Lutero; em traduo direta  "contratao", 
mas no sentido de transposio ou substituio, como nos casos em que os hinos eram modelados por canes populares e adaptados s suas melodias. Nem todos os reformadores 
aprovavam a contratao, mas Lutero praticava-a de bom grado. Seu hino de Natal Vom Himmel hoch da kom ich her ("Do alto do cu venho a ti") segue uma cano popular 
secular em sua primeira estrofe, enquanto um outro hino, Sie ist mir lieb, die werde Magd ("Ela me  cara, a querida virgem") foi inspirado numa cano de amor, 
transposta para termos religiosos interpretando a donzela como a Igreja. Um dos exemplos pg.249 mais famosos de contratao  um hino de Johann Hesse, baseado em 
Innsbruck ich muss dich lassen (acima, p. 145).

O Welt ich muss dich lassen
Ich fahr dahin mein Strassen
Ins ewig Vaterland...45

        A msica religiosa de Bach tem suas razes na cultura popular luterana.
        Nos ofcios calvinistas, os salmos eram os nicos textos que podiam ser cantados, mas isso no impedia que os calvinistas escrevessem hinos para serem cantados 
fora da igreja. Numa coletnea escocesa do final do sculo XVI, a contrafao no  to bem-sucedida e as canes seculares originais s vezes transparecem, dando-nos 
no s uma idia sobre as tcnicas dos reformadores, mas tambm um raro vislumbre da cultura popular escocesa antes de Knox. Eis trs exemplos:

For lufe o fone I mak my mone,
Richt secreitiy,
To ChristJesu...

Quho is a my windo? quho, quho?
Gofrom my windo, go, go!
Lord, I am heir, ane wretchit mortall...
Johne cum kis me now,
Johne cum kis me now ...
The lord thy God I am,
That Johne dois the call,
Johne representit man,
Be grace celestial...

(Por amor entreguei-me, / em total segredo, / a Jesus Cristo ... /Quem est  minha janela? Quem, quem? / Saia da minha janela, saia, saia! / Senhor, estou aqui, 
um pobre mortal ... / John, vem agora me beijar, John vem agora me beijar... / Sou o senhor teu Deus, / A quem John faz o apelo, / John representa os homens, /S 
graa celestial...)

        Boa parte da cultura popular tradicional, como vimos, consistia em pardias da cultura oficial, como julgamentos e funerais simulados. Aqui a roda completa 
seu crculo, e encontramos pardias" pias sobre o profano.46
        Nos primeiros anos da Reforma, o ritual e o teatro foram postos a servio dos protestantes. Os carnavais foram a ocasio para ridicularizar pg.250      
o papa e seu clero em Wittenberg (1521), em Berna (1523), em Stralsund (1525) e outros lugares. Nos anos 1520 e 1530, floresceram peas satricas. Na Basilia, em 
1521, os cidados puderam assistir a Totenfresser de Gengenbach (acima, p. 180). Em Paris, em 1523, puderam ver A Farsa de Theologastres, uma contratao de uma 
pea de milagres na qual a "dama F", que est doente, descobre que as decretais e os sermes no lhe trazem nenhum bem, enquanto o texto da Sagrada Escritura cura-a 
imediatamente. Em Berna, em 1525, o povo pde assistir a O vendedor de indulgncias, uma stira local do poeta-pintor Niklas Manuel. Thomas Naogeorgus adaptou a 
tradicional pea de mistrio a propsitos protestantes em seu Pammachius (1538), que trata de um papa corrompido pelo poder. Em 1539, uma pea chamada A rvore da 
Escritura foi encenada em Middeiburgh, nos Pases Baixos; atacava o clero e a "superstio". A primeira gerao de reformadores tinha clara conscincia de que "nas 
pessoas comuns as coisas entram mais rpido pelos olhos do que pelos ouvidos: lembrando melhor o que vem do que o que ouvem", tal como observou -um ingls do reinado 
de Henrique VIII, que props uma festa anual, com fogueiras e procisses, para comemorar o rompimento com Roma.47
        A longo prazo, porm, as peas perderam sua importncia para os protestantes, ou porque sua tarefa estava encerrada, ou porque o povo se tornou mais letrado, 
ou porque os reformadores mais rigorosos, que consideravam o teatro como algo essencialmente mau, conseguiram impor sua vontade aos moderados. Essa histria da imagem 
religiosa na cultura popular protestante seguiu linhas semelhantes. Na primeira gerao, a gravura foi um importante instrumento de propaganda; h, como exemplos, 
a oficina de Cranach e Passional de Cristo e Anticristo (acima, p. 161), mas tambm muitos outros. Depois dos anos iniciais, as gravuras perderam grande parte de 
sua importncia. Na Europa luterana, ainda havia espao para a imagem devota: pinturas de Lutero, ilustraes de episdios da Bblia (em particular do Novo Testamento) 
ou emblemas, como as ilustraes em A verdadeira Cristandade e Jardim do Paraso, de Arndt, que inspiraram muitos murais em igrejas alems ou suecas, ou mesmo quadros 
do Juzo Final ou dos tormentos do Inferno. Na Europa calvinista, porm, as paredes das igrejas eram brancas e nuas. O teto, o plpito ou os monumentos fnebres 
podiam ser decorados, mas o vocabulrio ornamental se reduzia a poucos termos simples: flores, querubins, lembretes da mortalidade, como ampulhetas e caveiras, ou 
emblemas, como o grou com uma pedra no p, simbolizando a vigilncia. Tanto na rea luterana como na calvinista, muitas vezes v-se que a igreja ou o templo  decorado 
pg.251 com textos. Lutero recomendava que os muros dos cemitrios fossem pintados no com imagens, mas com textos, como "Sei que meu Redentor vive". Podemos encontrar 
os Dez Mandamentos expostos em dois quadros, um em cada lado da abbada do coro, ou um "retbulo de catecismo" inscrito com mandamentos, o pai-nosso e o credo, ou 
textos da Bblia pintados no plpito, ou nas traves do forro da igreja; pois "o Cu e a Terra passaro: mas minhas palavras no passaro" (Lucas 21). Num grau muito 
maior do que os catlicos, a cultura popular protestante era uma cultura da Palavra.48
        H menos a se dizer sobre a cultura catlica reformada, pois distingue-se menos da cultura popular tradicional, contra a qual objetavam os reformadores. 
Assim como os protestantes, os lderes catlicos acreditavam na contrafao  na verdade, vinham-na praticando h sculos. Em 601 d. C, o papa Gregrio, o Grande, 
advertiu o bispo Agostinho, que fazia trabalho missionrio na Inglaterra mais tenebrosa, que "os templos dos dolos naquele pas no devem ser em hiptese alguma 
destrudos"; os dolos deviam ser destrudos, mas os templos seriam convertidos em igrejas, "e como eles tm o costume de sacrificar muitos bois a demnios, deixe 
que alguma outra solenidade o substitua em seu lugar". O princpio bsico de Gregrio era que " certamente impossvel erradicar todos os erros de mentes obstinadas 
de um s golpe, e quem quer escalar uma montanha at o alto sobe gradualmente passo a passo e no num s salto". Era a famosa doutrina da "adaptao", que explica 
como uma festa pag de Solstcio do Inverno pde sobreviver como Natal e uma festa de Solstcio de Vero como nascimento de so Joo Batista. A doutrina esteve presente 
sob a prtica de missionrios catlicos nas ndias nos sculos XVI e XVII, como o jesuta Roberto de Nobili, que adaptou rituais catlicos  cultura dos brmanes 
do sul da ndia, justificando-se, quando interpelado, com a citao do papa Gregrio.49
        A mesma poltica pode ser vista em funcionamento nos incios da Europa moderna. Quando os muulmanos de Granada foram convertidos   fora  no final do 
sculo XV, o primeiro arcebispo de Granada autorizou esses "novos cristos" a utilizar suas canes tradicionais nos ofcios religiosos. Essa poltica ainda pde 
ser vista no final do sculo XVII. Bossuet, que era bispo de Meaux e pregador na corte de Lus XIV, aconselhou seu clero sobre a atitude que deviam assumir em relao 
s fogueiras da noite de so Joo. "A Igreja participa desses fogos?", perguntou Bossuet, retoricamente: pg.252

Sim, porque numa srie de dioceses, e nesta em particular, uma srie de
parquias acendem uma fogueira que podem chamar de "eclesistica".
Qual  a razo para acender uma fogueira de uma maneira eclesistica?
Banir as supersties praticadas  fogueira da noite de so Joo.

        Bossuet no explica no que uma fogueira eclesistica difere exatamente de uma fogueira comum, mas a tcnica de adaptao  bastante clara.50
        Para complicar as coisas nos incios do perodo moderno, os reformadores catlicos estavam lutando em duas frentes: contra os protestantes que queriam reformas 
demais, e contra a imoralidade e a "superstio". A cultura da Contra" Reforma traz as marcas das duas lutas. Talvez seja til descrever trs elementos dessa cultura, 
em ordem: rituais reformados, imagens reformadas e textos reformados.
        Os reformadores catlicos tinham clara conscincia dos usos do ritual. Utilizavam o ritual para convencer o povo de que os protestantes estavam errados ou 
eram perversos, ou ambos. O retrato de Zwinglio foi queimado no Carnaval de Lucerna, em 1523, enquanto Lutero era periodicamente queimado na noite de so Joo, na 
Alemanha catlica, at o incio do sculo XIX. Herticos se retratavam em pblico, ou eram queimados em pblico, como,nos famosos autos-de-f em Valladolid e Sevilha, 
no comeo do reinado de Filipe II; livros herticos eram queimados em pblico, de Montpeilier a Vilna. Savonarola converteu seu ataque ao Carnaval numa outra espcie 
de Carnaval. Sua famosa queima de "vaidades" em Florena era um substituto deliberado do
costume de se acenderem fogueiras no Carnaval e se queimarem carros alegricos. E, pelo menos numa ocasio, o prprio "Carnaval", "sob a forma de um srdido e abominvel 
monstro", foi acrescentado  pira, como uma execuo simulada ao estilo tradicional, mas com novo significado. Em Milo, so Carlos Borromeu no s proibiu peas 
durante o Carnaval, como tambm organizou procisses substitutas. A orao de "Quarenta Horas", que se difundiu na segunda metade do sculo XVI e muitas vezes inclua 
magnficos efeitos de luz e som, tambm tem sua origem em festas seculares, de modo a ocupar seu lugar nos coraes dos fiis.51
        Os novos rituais podem ser vistos em seu auge mais teatral nas misses que os jesutas e outras ordens empreendiam em cidades e no campo durante o sculo 
XVII. Na Bretanha, por exemplo, os missionrios organizavam dilogos entre vivos e condenados e procisses que representavam a Via Crucis. Ainda mais teatrais eram 
as misses no Reino de Npoles, por volta de 1650. Os sermes ocupavam um lugar importante na misso e podiam ser pregados ao amanhecer ou ao anoitecer,pg.253  
de modo que os trabalhadores tivessem oportunidade de ouvi-los. Muitas vezes eram sermes sobre o fogo do inferno, e o pregador podia apresentar uma caveira a fim 
de impressionar os ouvintes; "frequentemente era necessrio que o pregador deixasse de falar por quase um quarto de hora, devido aos gemidos e soluos dos seus ouvintes". 
Ainda mais importantes eram as procisses, compostas principalmente de homens  estamos no sul , incluindo penitentes "com coroas de espinhos na cabea, cordas 
em torno do pescoo, e nas mos ossos ou caveiras ou pequenos crucifixos, passando pelas ruas descalos e seminus", alguns carregando pesadas cruzes ou se auto-flagelando 
 medida que andavam. A seguir vinham os que carregavam relquias e esttuas, seguidos por outros leigos, enquanto o clero formava a retaguarda, trazendo bacias 
cheias de livros proibidos, canes de amor e objetos mgicos, material para outra fogueira de "vaidades".52
Alguns pregadores missionrios, como Le Nobletz ou Maunoir, na Bretanha, empregavam expedientes visuais, imagens para ilustrar a vida de so Martinho, por exemplo, 
ou do Pai-Nosso, do Sagrado Sacramento e dos tormentos do Inferno.53 Bossuet recomendou aos seus procos que colocassem imagens no plpito, a fim de fazer com que 
a congregao prestasse mais ateno s palavras do pregador. Os catlicos reformados, ao contrrio dos protestantes reformados, continuavam a ter uma religio de 
imagens, e no tanto uma religio de textos, fosse isso causa ou consequncia da maior taxa de analfabetismo, de modo geral, nas reas catlicas em comparao s 
protestantes. A sugesto de Gregrio, o Grande, de que as pinturas eram os livros dos iletrados continuava a manter toda a sua relevncia. Os reformadores no queriam 
dispensar totalmente as imagens, ainda que pudessem considerar censurveis certas imagens religiosas populares.
        Em lugar do que fora expurgado pela Reforma, a Igreja ofereceu aos catlicos novos santos e novas imagens. Santo Incio de Loyola, canonizado em 1622, usualmente 
era apresentado como um homem de barba segurando um livro aberto, o regulamento da sua ordem, trazendo no peito as letras IHS (lesu Hominum Salvator, "Jesus Salvador 
dos Homens"). Santa Teresa d'vila, tambm canonizada em 1622, frequentemente era representada em xtase, como na famosa escultura de Bernini, enquanto um anjo atravessava-lhe 
o corao com uma flecha. Na Europa central, um importante recm-chegado foi Joo Nepomuceno, que j era objeto de culto no sculo XVII, embora s tenha sido canonizado 
em 1729.54 Houve outras mudanas importantes na nfase das devoes. Santa Maria Madalena se tornou mais importante do que fora antes da Contra-Reforma, e o mesmo 
ocorreu com so Jos. Pg.254 So Jos fora uma figura um pouco cmica no final da Idade Mdia, "Jos, o Louco" (Joseph, l Rassot), o santo cornudo. No sculo 
XVII, porm, o clero parece ter tentado persuadir os fiis a lev-lo mais a srio. Fundaram-se irmandades consagradas a ele, e tendeu-se a substituir a tradicional 
dupla Virgem-e-filho por cenas da Sagrada Famlia, onde ele estava includo. Houve maior nfase sobre o culto da eucaristia do que durante a Idade Mdia; o surgimento 
da prece das "Quarenta Horas"  um indicador dessa mudana.55
        Essas modificaes parecem ter resultado de polticas oficiais da Igreja. O culto da Sagrada Famlia, assim como o culto de santo Isidoro, o lavrador (canonizado 
em 1622, juntamente com santo Incio e santa Teresa), parece ser uma tentativa deliberada de apelo ao leigo comum. A canonizao de Incio, Teresa e so Carlos Borromeu 
ressalta as realizaes da Reforma catlica. O culto da eucaristia foi uma reao aos ataques protestantes  transubstanciao,  missa e  posio especial do sacerdcio. 
Da mesma forma, a nova nfase sobre santa Maria Madalena (geralmente representada como uma penitente em prantos) e o culto de so Joo Nepomuceno (padre que foi 
assassinado por ter se recusado a revelar os segredos da confisso) eram respostas s crticas protestantes  instituio da confisso e ao sacramento da penitncia. 
Num famoso ensaio, o antroplogo Malinowski apresentou os mitos do passado como encarregados de uma funo no presente, como a "carta magna" de instituies atuais, 
legitimando-as, justificando-as. Certamente parece que foi assim que os mitos, rituais e imagens serviram  Igreja da Contra-Reforma.56
        Teria sido estranho se esses apelos aos olhos no viessem acompanhados por apelos aos ouvidos. De fato, os hinos em vernculo haviam sido um importante elemento 
da cultura religiosa laica na baixa Idade Mdia, associados principalmente a irmandades. Na Itlia do sculo XIII, as irmandades cantavam laude, hinos que frequentemente 
eram imitaes piedosas das canes populares da poca. Essa prtica continuou at os incios do perodo moderno. Numa pea de milagres italiana sobre santa Margarida, 
a herona canta uma lauda que comea:

O vaghe di Jesu, o verginelle
Ove n 'andate si leggiadre e belle?
( graciosas de Jesus,  virgenzinhas
Onde vo to elegantes e belas?)

A melodia  descrita como a de O vaghe montanine e pastorelle (" graciosas montanhesas e pastorinhas"); este hino (como as "canes  pg.255 espirituais" da coletnea 
de Wedderburn) pouco faz para disfarar a letra secular original. Na Espanha, por volta de 1500, o franciscano Ambrosio Montesino escreveu hinos que eram "contrafaes 
ao divino" (contrahechos a Io divino). Como a poesia de amor fizera emprstimos da linguagem religiosa, no era difcil voltar ao uso religioso e louvar a Virgem 
Maria, ao invs de um amor terreno. Essa tradio de composio de hinos continuou depois do conclio de Trento. O missionrio jesuta Julien Maunoir comps "cnticos 
espirituais"  Virgem, e outros que "continham todos os princpios da f", para serem usados na converso da Bretanha rural.57
Por ltimo, e provavelmente de menor importncia na cultura catlica, veio a tentativa de alcanar os leigos letrados atravs da Bblia e outras leituras piedosas. 
Evidentemente publicavam-se tradues da Bblia nos pases catlicos  a primeira Bblia impressa em alemo remonta a 1466. Os catecismos catlicos se modelavam 
pelos protestantes (p. 248, acima). Os dos jesutas Peter Canisius (1555) e Robert Bellarmine (1597) foram vrias vezes reimpressos; foram publicadas mais de setenta 
edies alems de Canisius antes de 1800, enquanto Bellarmine foi traduzido para muitas lnguas e dialetos europeus, incluindo basco, bsnio, croata, friulano, siciliano, 
hngaro, irlands e malts. Esses catecismos eram escritos em linguagem simples e muitas vezes traziam ilustraes, de modo que realmente parece terem se destinado 
aos leigos, no sendo tanto obras de referncia para o clero. Na Frana do sculo XVII, o catecismo era regularmente ensinado s crianas nas petites coles, nos 
domingos e dias santos. Mas tem-se a impresso, que poder ser confirmada ou refutada por um estudo comparativo dos inventrios, de que o catecismo teve um papel 
menor na vida religiosa da Frana catlica do que na da Sucia protestante.58
Como o catecismo, os hinos de orao foram muito menos importantes na Europa catlica do que na Europa protestante. A Imitao de Cristo foi vrias vezes reeditada 
nesse perodo. O Combate espiritual (1589), obra annima associada ao padre italiano Lorenzo Scupoli, teve pelo menos 23 edies entre 1609 e 1788, apenas na Frana. 
Em meados do sculo XVII, quando os livros vinham se tornando mais baratos, o snodo de Chalons-sur-Marne sugeriu que os fiis deveriam ser incentivados a comprar 
e ler trs livros, e que estes trs livros tambm deviam ser lidos em voz alta "no prtico ou na entrada da igreja, em todos os domingos e dias de festas depois 
das vsperas". Os trs livros eram o catecismo, o Pedagogo cristo e um chamado Pensez-y-bien. O inventrio do estoque de um editor parisiense que morreu em 1698 
menciona 450 exemplares da Imitao de Cristo e 630 do Pensez-y-bien. O que pg.256 era esse famoso Pensez-y-bien? Era um tratado sobre a arte de morrer bem. O leitor 
 exortado a imaginar a hora de sua morte; pensar nas coisas que lamentaria ter feito, se sua hora tivesse chegado; refletir sobre as coisas que gostaria de ter 
feito, se agora estivesse  morte. No final de cada pargrafo, como um refro, vinham as palavras em itlico Pensez-y-bien.59

A SEGUNDA FASE DA REFORMA, 1650-1800
O argumento das duas ltimas sees pode ser resumido da seguinte maneira. No final do sculo XVI e incio do sculo XVII, houve uma tentativa sistemtica por parte 
de membros da elite, principalmente dos cleros catlico e protestante, em reformar a cultura do povo comum. A reforma tinha precedentes medievais, mas foi mais eficaz 
no incio da Europa moderna do que na Idade Mdia porque as comunicaes, de estradas a livros, eram melhores do que antes. Os reformadores no estavam mais condenados 
a girar no mesmo lugar, como nos tempos de santo Agostinho e mesmo so Bernardino, mas podiam construir sobre a obra de outros. Assistncia da cultura popular comeou 
a ceder, e ocorreram importantes transformaes. At onde e com que rapidez se deram essas transformaes, e como o povo logo apropriou-se das novas formas da cultura 
protestante e catlica, so questes difceis que no podero receber respostas satisfatrias antes que se empreenda um nmero muito maior de pesquisas regionais. 
Minha impresso, baseada nos fragmentos de provas reunidos nas ltimas pginas,  a de que ocorreu uma srie de transformaes importantes por volta de 1650, principalmente 
na Europa protestante e nas regies mais urbanizadas. Perto de Berna e Zurique, a reforma da cultura popular parece ter se dado por volta de 1530; em Nuremberg, 
os reformadores marcaram a sua influncia em torno de 1540; na provncia da Holanda, parecem ter vencido antes de 1600.60
Em grande parte da Europa catlica, por outro lado, e nas partes mais afastadas do continente, distantes das principais cidades, das principais estradas e das principais 
lnguas, os reformadores obtiveram suas vitrias apenas depois de 1650: no Pas de Gales e na Noruega protestantes, na Baviera, Siclia, Bretanha e Languedoc catlicos, 
para no citar a Europa oriental. Mas a histria a ser narrada nesta seo no  apenas a da gradual difuso de ideais imutveis. Foram anos de uma "reforma dentro 
da reforma" (tanto catlica como protestante) e do surgimento de grupos de reformadores leigos que nem sempre desejavam pg. 257 as mesmas transformaes na cultura 
popular pretendidas pelos seus colegas clericais, ou desejavam-nas nem sempre pelas mesmas razes.
A sobrevivncia do catolicismo "pr-Reforma" em regies distantes  facilmente documentvel. Em algumas dessas reas, por exemplo, os autos de mistrios tardavam 
a chegar e tardavam a partir. Nas terras altas bvaras, as peas da Paixo de Oberammergau e outras aldeias s comearam a ser encenadas a partir de 1634. Embora 
chocassem parte do clero  o arcebispo de Salzburg declarou em 1779 que "no se pode imaginar uma mistura mais estranha de religio e profanidade do que as chamadas 
peas da Paixo" , at 1800 no foram abolidas, e a pea de Oberammergau foi restaurada, sob forma expurgada, em 1810. Na Siclia, as peas de mistrios s se generalizaram 
em meados do sculo XVII, e ainda floresciam no sculo XIX. Tambm na Bretanha peas deste tipo ainda eram representadas no sculo XIX. Um visitante do Finistre 
relatou, por volta de 1765, que vira pessoas a danar numa capela e num cemitrio no distantes de Brest.61
Talvez seja til observar um pouco mais detalhadamente uma dessas reas distantes: o Languedoc. No Languedoc do final do sculo XVII, havia dois bispos reformadores 
enrgicos, Nicholas Pavillon, bispo de Alet, ao molde de so Carlos Borromeu, e Franois-tienne Caulet, bispo de Pamiers, ao molde de Pavillon. Fica claro, a partir 
dos documentos de ambos, que todo o trabalho da reforma ainda estava por fazer nas terras altas do Languedoc. Os dois bispos registram seu horror a charivari violentos, 
danas indecentes em dias de festa, adivinhos, afores ambulantes e uma ignorncia generalizada sobre a religio. Caulet ainda estava precisando proibir seus procos 
de freqentar peas, danas e mascaradas, como se a reforma catlica nunca tivesse acontecido. No eram apenas as montanhas que separavam os habitantes de Alet e 
Pamiers do que ocorria em outros lugares; Pavillon observou a necessidade de um catecismo "na lngua vulgar" para seu povo, pois eles no sabiam francs. Sem dvida 
foi por isso que Bartholom Amilha, indicado por Caulet como cnego de Pamiers, publicou seu Quadro da vida de um cristo perfeito (1673) em provenal. Seus versos 
expem vigorosamente as idias dos reformadores. Adverte os leitores ou ouvintes sobre os perigos de danar, jogar, freqentar aquelas "casas da iniquidade" que 
so as tavernas e, acima de tudo, sobre os perigos do Carnaval.

Chrestias, pensen  Ia counsciena
Duran aqueste Carnabal pg.258
Soungen que cal fa penitenco
Quiten Ia taberno  Ia bal,
La mort es touto preparado
A fa calqu 'autro mascarado
(Cristos, examinem a conscincia / Durante este Carnaval / Pensem que algum faz penitncia / Deixem a taverna e a dana, / A morte est toda preparada / Para fazer 
uma outra mascarada.)
Amilha tambm est preocupado com a difuso do protestantismo. Vocs leram, pergunta ele, autores que "cheiram a fogueira", os livros de Calvino ou a verso dos 
salmos por Marot?
Aurios legit d^auteurs que sentan le fagot,
Les libres de Calbin, o Salmes de Marot?
Ele tambm parece supor que seu pblico levava a magia a srio:
As legit o gardat de libres de magio,
As foundat toun salut dessu l'astralougio...
As consoultat Sourcie, Magicien, Debinaire,
Per Ia santat del fil, de Ia sor, o del fraire,
Per sabe le passat, o recouba toun be,
O couneisse l'partit que tu dibes abe...
(Leste ou guardaste livros de magia, / Fundaste tua salvao na astrologia... / Consultaste feiticeira, mgico, adivinho, / Para a sade do filho, da irm ou do 
irmo, / Para saber o passado ou recuperar teus bens, / Ou conhecer o partido que te caber...)62

Parece impossvel dizer se as reformas de Pavillon e Caulet sobreviveram a eles. Em outras partes do Languedoc, os devotos ainda tinham seus problemas, quase um 
sculo depois. O bispo de Lodve queixou-se sobre uma, "abadia do desgoverno" em 1746, e seu amigo, o proco de Montpeyroux, que costumava negar os sacramentos a 
pessoas que tivessem participado de danas, foi objeto de um ritual simulado em 1740, quando um bando de mascarados carregou um boneco vestido de padre pelas ruas, 
antes de espanc-lo e queim-lo. A batalha entre o Carnaval e a Quaresma ainda prosseguia.63
Mas no era absolutamente a mesma batalha. Alguns dos reformadores estavam indo alm do conclio de Trento, ou numa direo diferente, e vinham criticando a devoo 
popular  Virgem Maria e aos santos, esperando substitu-la por um cristianismo mais bblico, expurgando da "superstio". Este movimento estava particular mas no 
exclusivamente associado aos jansenistas, e no final do sculo XVIII alguns dos seus lderes tentaram proceder a grandes transformaes na religio popular na ustria 
e Toscana. Na ustria, o ritual foi simplificado pg.259 ficado, as esttuas removidas, e algumas igrejas de peregrinaes totalmente fechadas. Em Toscana, Scipione 
Ricci, que se tornou bispo de Pistia e Prato em 1780, realizou um snodo onde props a transferncia de certas festas religiosas para o domingo, recomendou que 
os leigos lessem a Bblia e criticou a devoo ao Sagrado Corao. Nas duas regies, essa investida contra a religio popular tradicional provocou sublevaes camponesas 
entre 1788 e 1791, e Ricci foi obrigado a renunciar.64
As mudanas nas idias dos reformadores catlicos podem ser ilustradas pelas suas atitudes em relao s imagens. Em 1570 Johannes Molanus, um telogo de Louvain, 
publicou um tratado sobre imagens religiosas que resume a posio ao trmino do conclio de Trento. Molanus observa a necessidade de evitar a "superstio", mas 
no v nada de errado nas imagens tradicionais da "caridade de so Martinho" e de santo Antnio com seu porco (acima, pp. 179,205). Em 1623, porm, o arquidicono 
de Paris, em visita  diocese, ordenou aos fabricrios de uma aldeia "remover o so Martinho de cima do altar porque ele est a cavalo, e convert-lo em bispo, para 
ficar decente". Em outras palavras, a cena tradicional da "caridade de'so Martinho" no mais parecia decente para um clrigo da Contra-Reforma; ele estava quase 
chegando a identificar o clerical com o sagrado. Um exemplo ainda mais impressionante da reforma catlica das imagens e o fosso crescente entre o clerical e a cultura 
popular  o da diocese de Orlans em 1682. O bispo que visitava uma aldeia encontrou uma imagem completa de santo Antnio com seu tradicional porco. Imediatamente 
ordenou que enterrassem a imagem  os catlicos no se entregavam  iconoclastia  por t-la considerado "ridcula e indigna deste grande santo". Os paroquianos 
no queriam perder a imagem, e algumas mulheres comentaram que o bispo "no gostava de santos porque vinha de uma raa de huguenotes". Em termos mais gerais, o snodo 
de Pistia de 1786 criticou o culto s imagens, e particularmente a prtica de dar nomes diferentes a diferentes imagens da mesma pessoa, como se existisse mais 
de uma Virgem Maria.65

No  to fcil encontrar reas protestantes que tenham resistido  reforma da cultura popular para alm de 1650, mas elas existiram, principalmente nas montanhas. 
Na Noruega, por exemplo, no sculo XVIII ainda sobreviviam crenas catlicas e mesmo pags. Ainda podiam-se ver crucifixos, e a crena nos poderes milagrosos de 
santo Olavo ainda era generalizada. Ele estava associado a uma srie de fontes. pg.260 Nas Terras Altas da Esccia, a guerra dos pastores contra as canes, danas 
e baladas tradicionais parece ter sido vitoriosa somente no sculo XVIII; em torno de 1700, um fidalgo local, Martin Martin, pde indicar a sobrevivncia de muitos 
costumes catlicos e at pr-cristos nas ilhas ocidentais.66
Uma outra rea em que os reformadores ainda tiveram muito o que fazer depois de 1700 era o Pas de Gales, onde muita gente continuava animadamente a celebrar dias 
santos, levando relquias em procisses e realizando corridas, partidas de futebol e rinhas de galo. Feiras, rabequistas, curandeiros, harpistas, farsas, contadores 
de estrias e viglias, todos floresciam. Esse estado de coisas, naturalmente, era um desafio aos devotos. Entre os mais enrgicos encontrava-se Griffith Jones, 
pregador no conformista, adversrio incansvel de viglias e feiras, e grande adepto de leituras bblicas, sermes, hinos e educao rural atravs de mestres-escolas 
itinerantes, conhecidos na poca como "escolas circulantes". Ainda mais famoso era Howell Harris, lder dos metodistas galeses na poca de Wesley (apesar de no 
admitir ser um metodista), o qual, disse Whitefield:
...dedicava-se a ir em viglias, etc., para desviar o povo de tais vaidades enganadoras. Muita gente de cervejaria, rabequistas, harpistas, etc. (do tipo de Demetrius) 
reclamam amargamente contra ele por estragar seus negcios.
Harris tambm era um categrico adversrio das rinhas de galo; um amigo escreveu-lhe em 1738 que "um maioral das partidas de galos, que ouviu voc em Bettws, promete 
nunca mais acompanhar esse jogo perverso". Como no caso do Languedoc,  difcil dizer at que ponto foi eficaz o movimento de reforma no Pas de Gales, numa determinada 
gerao qualquer. Um escritor em 1802 sugeriu que o declnio da "arte nacional dos menestris e dos costumes de Gales" era recente e abrupto, obra de pregadores 
"fanticos", como ele os chamou.
No curso das minhas excurses pelo principado (prosseguia ele), encontrei diversos harpistas e cantores que atualmente foram convencidos por esses vagabundos errantes 
a renunciar  sua profisso, pela idia de que era pecaminosa.
Os contos folclricos e as canes mineiras praticamente desapareceram. Graas aos esforos dos calvinistas e metodistas no norte, e dos batistas e congregacionistas 
no sul, a cultura popular galesa se tornou, em larga medida, uma cultura de capela, com hinos, sermes e proibies.67 pg.261
A reforma dentro da Reforma na Europa protestante, paralela ao jansenismo entre os catlicos, consistiu na ascenso do "pietismo". Na Alemanha, este movimento, liderado 
por Philipp Jakob Spener, declarava retomar a Lutero, mas significou uma importante transferncia da nfase na reforma do ritual e das crenas, que muito preocupara 
Lutero, para a reforma interior ou moral. Os escandinavos participaram diretamente do movimento pietista, e o revivescimento gals foi paralelo, se  que no diretamente 
ligado, a ele. Na Inglaterra, nos anos 1690, fundaram-se associaes para o que se chamou de "reforma dos costumes". Essas sociedades tomavam providncias contra 
feiras, apostas, mascaradas, peas, tavernas, prostitutas e "baladas obscenas". A preocupao dos reformadores quanto  "profanao do dia do Senhor" une-os a uma 
gerao anterior de puritanos, mas o movimento estava fundamentalmente interessado mais nos princpios morais do que na teologia, mais na "licenciosidade" do que 
na "superstio". A tica da respeitabilidade aqui  mais visvel do que antes. O ataque da metade do sculo XVIII s diverses populares inglesas, a que procederam 
os evanglicos,  de se incluir nessa tradio. Na Frana, a Companhia do Sacramento, com suas ramificaes em Paris, Marselha, Toulouse e outros locais, foi uma 
outra sociedade ou grupo de presso pela reforma dos costumes, fazendo campanhas contra o Carnaval e investigando a vida e moral de adivinhos ou danarinos equilibristas.
Uma caracterstica notvel dessa segunda fase da reforma foi o papel crescente desempenhado pelos leigos. A Companhia do Sagrado Sacramento era um grupo misto de 
padres e leigos. Na Inglaterra, muitos leigos, de Guilherme III ajuzes de paz rurais, participaram ao lado do clero no movimento pela reforma dos costumes, filiando-se 
s sociedades locais fundadas com a finalidade de colocar em vigor os ideais dos reformadores no Tribunal. Os pregadores leigos eram proeminentes nos movimentos 
de renovao religiosa na Gr-Bretanha e Escandinvia. Na Noruega, um deles, Hans Hauge, no s queimava rabecas e pregrava contra canes, contos e danas folclricas, 
como ainda dizia aos seus ouvintes que refletissem por si mesmos sobre a religio, ao invs de apenas ouvir o clero.68
Uma outra diferena entre a primeira e a segunda fase da reforma foi a importncia crescente dos argumentos seculares, incluindo consideraes estticas. Johann 
Christoph Gottsched, professor de potica em Leipzig, iniciou uma investida contra o teatro popular de sua poca, o teatro de Hans Wurst e Arlequim, em nome no 
da moral, mas do bom gosto (der gute Geschmack). Deplorava que "o povo comum pg.262  sempre tirasse mais prazer de bobagens e detestveis insultos (Narrenpossen 
und garstige Schimpfreden) do que de coisas srias". Tambm protestava contra peas que quebravam as regras de Aristteles e contra atores que tomavam liberdades 
com o texto  em outras palavras, improvisavam  maneira tradicional , pois isso resultava em peas que s prestavam para divertir "a mais baixa ral" (des untersten 
Pbels). De fato, Bottsched conseguiu em 1737 que se expulsasse Arlequim do palco. Seu equivalente vienense foi Josef von Sonnenfels, cujas cartas sobre o teatro 
vienense nos anos 1760 deram incio a uma acesa controvrsia, conhecida como o Hanswurst-Streit. Como Gottsched, Sonnenfels achava o teatro popular indecente demais 
 com efeito, gostaria de poder censurar os gestos e os textos , e seu ideal era um teatro que observasse as unidades de tempo, lugar e ao,  maneira da dramaturgia 
clssica da Grcia antiga ou da Frana do sculo XVII.69
Uma das diferenas mais notveis entre as duas fases da reforma refere-se ao sobrenatural. Os primeiros reformadores da cultura popular, como Calvino e so Carlos 
Borromeu, acreditavam na eficcia da magia que denunciavam como diablica; de fato, seria o caso de incluir nesse movimento de reforma as grandes caas s bruxas, 
que atingiram seu pice no final do sculo XVI e incio do sculo XVII. Contudo, uma srie de reformadores da segunda fase simplesmente no levava mais a srio a 
feitiaria. Na diocese de Alet, Pavillon subiu ao alto de uma montanha para impedir que o povo local queimasse vrias mulheres suspeitas de feitiaria. Na Repblica 
Holandesa, o pastor calvinistas Balthasar Bekker escreveu um livro para provar que a crena em bruxas era tolice.70
As transformaes no significado das palavras por vezes so indicadores sensveis de transformaes muito mais amplas nas atitudes. Neste contexto, um termo a se 
examinar  "superstio". Em ingls e nas lnguas romnicas, a palavra teve dois significados bsicos no incio do perodo moderno. Antes de 1650, o significado 
predominante parece ser "falsa religio", em expresses como "a superstio maometana". O termo  freqentemente empregado para a magia e a feitiaria, em contextos 
que sugerem que tais rituais so eficazes, mas perversos. Depois de 1650, porm, o significado predominante do termo passou a ser "medos irracionais" e os rituais 
a eles associados, crenas e prticas que eram tolas, mas inofensivas, pois no tinham absolutamente nenhum efeito.71 No  fcil avaliar a rapidez com que ocorreram 
as modificaes e os grupos sociais nelas envolvidos. Na Inglaterra e Frana, os processos contra bruxas declinaram no final do sculo XVII porque pg.263 os magistrados 
no levavam mais a srio a feitiaria; mas nas pequenas cidades do sudoeste da Alemanha parecem ter declinado s porque os magistrados no se julgavam mais capazes 
de identificar as bruxas, e na Polnia simplesmente no declinaram at o sculo seguinte. Se houve um "declnio da magia" a nvel popular antes de 1800, evidentemente 
 uma outra questo. A "gente astuta" parece ter se mantido bastante ativa no sculo XIX, e mesmo no incio do sculo XX, em muitas partes da Europa, sobrevivendo 
ao ceticismo das classes superiores tal como sobreviveram aos caadores de bruxas. No se deve subestimar a resistncia da cultura popular.72
A segunda fase da reforma pode ser vista com particular clareza no caso da Espanha do sculo XVIII, talvez porque a cultura popular espanhola tradicional tivesse 
sido pouco afetada pela primeira fase, apesar de Mariana e Alcocer. O movimento comeou com Benito Feijo, um monge beneditino cujos ensaios, reunidos sob o ttulo 
O teatro crtico universal, compem uma critica sistemtica aos erros comuns, particularmente aos erros das pessoas comuns (Ia plebe, Ia multitud ou el vulgo, como 
diz ele). Com seu jeito calmo, moderado, prudente, racional, Feijo trata sucessivamente de adivinhao,,"supostas profecias", magia, curandeiros, "supostos milagres" 
e "tradies populares". Considera todas essas crenas como irracionalidades, credulidades, "extravagncias".73
Na gerao seguinte, um grupo de reformadores espanhis apresentou argumentos  seculares  contra touradas, baladas de rua e as peas de mistrios de Caldern. 
As peas de Caldern j haviam sido atacadas por "misturar e confundir o sagrado e o profano", mas em 1762 o nobre Nicolas Fernndez de Moratn criticou-as por razes 
mais estticas, ao molde de Gottsched e Sonnenfels, por romperem com as regras estabelecidas pela razo e pelo bom gosto, em outras palavras, as unidades de tempo, 
lugar e ao. As peas foram condenadas como irregulares, caprichosas, extravagantes. Moratn tambm atacou Lope de Vega, por corromper o teatro e escrever "barbaramente, 
para agradar ao povo" (barbaramente, por dar gusto al pueblo). A encenao pblica de autos na festa de Corpus Christi foi oficialmente proibida em 1780 por Carlos 
III.74
Argumentos mais polticos e morais foram apresentados por Gaspar de Jovellanos e Juan Melndez Vaids. Jovellanos achava que o teatro dava um mau exemplo ao povo, 
ao mostrar o crime como algo bem-sucedido, ao invs de trazer exemplos de "amor ao pas, amor ao soberano, amor  Constituio". Melndez Valds, num discurso de 
1798, sustentou argumentos parecidos contra baladas de rua. Bandidos pg.264 que matavam, violavam e resistiam s foras da lei e da ordem eram apresentados em baladas 
impressas sob uma luz herica, "inflamando na imaginao dos fracos o desejo de imit-los". Outras baladas eram indecentes e obscenas; outras ainda corrompiam a 
razo com suas estrias de "supostos milagres e falsas devoes". Deviam ser eliminadas, dizia ele, e substitudas por "canes verdadeiramente nacionais" que educariam 
as pessoas comuns, como as tradicionais baladas em louvor a so Jaime e El Cid.75
No se deve pensar que as peas de mistrios, baladas de rua e touradas (tambm denunciadas por Jovellanos) tenham desaparecido da Espanha no final do sculo XVIII; 
existem inmeras provas em contrrio. Na Espanha, como em outros lugares, os reformadores alcanaram de fato muitssimo menos do que queriam. Tambm pode-se dizer 
que alcanaram mais do que queriam, no sentido de que o movimento de reforma teve conseqncias importantes que eles no pretendiam nem esperavam. A mais bvia foi 
o aumento da separao entre a grande e a pequena tradio. Os reformadores no queriam criar uma cultura prpria, expurgada e separada; queriam atingir o povo, 
trazer todos para seu lado. Na prtica, as coisas funcionaram diferente. As reformas afetaram mais rpida e cabalmente a minoria culta do que as outras pessoas, 
e assim acentuaram e aprofundaram a separao dessa minoria em relao s tradies populares. Essa diviso, juntamente com outras transformaes no planejadas 
na cultura popular, ser o tema do prximo e ltimo captulo. Pg.265
